A encenação da peça As criadas, de Jean Genet, por Luc Bondy – numa produção da Volksbühne – é um dos espectáculos centrais do Festival de Almada de 2009. Depois de já ter recebido a Schaubühne, em 2002 (com Disco pigs, encenação de Thomas Ostermeier), e o Berliner Ensemble, o ano passado (com Peer Gynt, encenação de Peter Zadek), o Festival apresenta este ano, pela primeira vez em Portugal, outra grande companhia de referência da Alemanha, que, juntamente com aquelas, faz de Berlim a capital contemporânea do teatro.
A Volksbühne am Rosa-Luxemburg-Platz é, simultaneamente, um espaço teatral, uma companhia e uma escola de teatro. Construído entre 1913 e 1914, o edifício da Volksbühne – literalmente: «teatro do povo», situado na praça Rosa-Luxemburgo – veio responder aos anseios da associação Freie Volksbühne (Teatro do Povo Livre), a qual procurava, desde 1890, um espaço onde se praticasse um teatro pedagógico, mas de qualidade, para as classes trabalhadoras.
Situada em Berlim Leste – e integrada, portanto, na República Democrática Alemã, até 1989 –, a Volksbühne afirmou-se sempre como uma companhia de vanguarda, tendo sido dirigida por criadores como Max Reinhardt ou Erwin Piscator, o grande inventor do teatro político. Nos anos 70, foi marcada por Benno Besson, discípulo de Bertolt Brecht e um dos grandes encenadores que já passaram pelo Festival de Almada (na edição de 2003, com O amor das três laranjas, de Carlo Gozzi, e O círculo de giz caucasiano, de Brecht).
Desde 1992, é o encenador Frank Castorf (n. 1951) que, como intendente, a vem transformando numa das companhias mais inovadoras das artes performativas de hoje, atitude reflectida na atenção dada à música rock e pop e ao novo cinema e, ainda, na abertura à desconstrução assumida pela performance (inaugura mesmo uma nova sala em Berlim – o Prater –, extensão acentuadamente experimental da Volksbühne).
As criadas (Les bonnes, 1947) é uma peça que agitou o teatro independente português pré-25 de Abril, quando o argentino Victor García – influenciado por uma estética ritual e anti-capitalista – a dirigiu em 1972, no Teatro Experimental de Cascais. A história de duas criadas que, em mascaradas gro-tescas, emulam o mundo da patroa que desejam assassinar – numa lógica de escravo aprisionado, que só se emancipa pela representação suicidária – interpelou de modo diverso o encenador suíço Luc Bondy (n. 1948).
Nesta produção que se estreou em Junho de 2008, no Festival de Viena, Bondy sinaliza uma atmosfera específica, intimamente ligada ao cenário cru e denunciador de Bert Neumann (n. 1960), e ao expressivo desenho dos corpos no espaço: a emblemática Edith Clever (Madame), Caroline Peters (Claire) e Sophie Rois (Solange) revelam-se três intérpretes absolutamente extraordinárias. Na tensão enérgica desta criação joga-se, também, a própria ideia de crime que ensombra toda a obra de Genet e a teatralização que, paradoxalmente, a alimenta e lhe resiste.
A estreia deste espectáculo ganhou de imediato a admiração dos críticos de teatro alemães. Peter Hans Göpfert, do Berliner Morgenpost, sublinhou a qualidade do elenco, constituído por «duas gerações de actrizes, duas formas distintas de representar, que nos são aqui oferecidas numa salva de prata». Irene Bazinger, do Tip, considerou a encenação de Luc Bondy como «grandiosa», e apelidou Edith Clever de «monstro sagrado da arte teatral». Já Rüdiger Schaper viu a célebre actriz alemã «resplandecer de um modo sereno, mas sempre triunfal». E Christopher Funke, do Dienstag, avaliou a interpretação de Clever como «magistral».