Apartir de uma montagem de excertos dos Cantos de Maldoror, de Isidore Ducasse – esse pobre que usava o brilhante pseudónimo de Conde de Lautréamont – Matthias Langhoff opõe a voz furiosa do autor – eco fiel de um grito de revolta – ao mundo de hoje. À maneira de prólogo, a câmara da sua objectiva enquadra, nessa Paris que pouco mudou desde o tempo de Isidore Ducasse, os traços de uma miséria muito contemporânea, em que há homens a remexer nos contentores do lixo para se alimentarem. As imagens projectadas e as acções da representação em cena disputam assim a nossa atenção ao longo de um espectáculo que joga com os efeitos partilhados de múltiplos fundos projectados sobre o véu, ora opaco ora transparente, que reveste com uma gaze o espaço da cena.
Matthias Langhoff, encenador de língua alemã, nascido em 1941 na Suíça, entrou muito jovem para o Berliner Ensemble, de que foi co-director em 1992-1993. À excepção desses dois anos em Berlim e do ano e meio em Lausana, nunca teve um lugar fixo. De Berlim a Barcelona, de Paris a Avignon, de Moscovo ao Epidauro, na Grécia, tem mudado constantemente de palcos, de técnicas, de intérpretes e de público. De concepções nem sempre compreendidas, alia rigor, seriedade e humor. Evita a estética superficial e não recua diante da fealdade. Agita e surpreende. Mas nada nele é gratuito. As suas audácias baseiam-se nos próprios textos, na experiência vivida e numa independência inalterável.
André Wilms, actor e encenador francês, nasceu em Estrasburgo em 1947. Trabalhou sob a direcção dos encenadores Klaus Michael Grüber (Fausto, de Goethe, A morte de Danton, de Büchner), André Engel (Baal, de Brecht, À espera de Godot, de Beckett, Hotel moderno, a partir de Kafka, A noite dos caçadores, de Georg Büchner), Deborah Warner, Michel Deutsch e outros. Como actor de cinema, participou em filmes de Aki Kaurismäki, Étienne Chatiliez e Claude Chabrol. Desde finais da década de oitenta passou a fazer as suas próprias encenações no teatro e na ópera, tendo dirigido A conferência dos pássaros, de Michäel Levinas, O castelo do Barba Azul, de Bela Bartók, A filosofia na alcova, do Marquês de Sade, etc.
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont (1846-1870), nascido no Uruguai, filho de um funcionário consular, chegou a França em 1859, tendo estudado como aluno interno no liceu em Pau. Em vez de seguir estudos superiores, fechava-se no seu quarto a escrever, tendo publicado em 1868, à sua custa, o primeiro dos Cantos de Maldoror, que passou totalmente despercebido. No ano seguinte compôs os restantes cinco cantos.
Aquando da sua estreia no Théâtre de la Ville, em Paris, em Janeiro deste ano, Deus como paciente recebeu as seguintes críticas na imprensa francesa: «Um espectáculo em forma de turbilhão, vertiginoso, estonteante, fascinante, e do qual se sai embasbacado» (Hugues Le Tanneur, in Les inrockuptibles); «Um teatro puro, perturbante e enfeitiçante» (Philippe Chevilley, in Les échos); «Somos absorvidos pelas imagens do mundo presente e do mundo passado: afogamo-nos nelas» (in Le fígaro); «Matthias Langhoff é um criador de mundos, que eleva o teatro ao mais alto nível, à grande Arte, como soe dizer-se () Deus como paciente é um tsunami» (in Mouvement).
Intérpretes Anne-Lise, Heimburger, Frédérique Loliée, André Wilms Cenário e filme Matthias Langhoff Pintura Catherine Rankl, Matthieu Lemarié Figurinos Catherine Rankl, Corinne Fischer Desenho de luz Frédéric Duplessier, assistido por Éric Marynowerv Som Brice Cannavo Assistentes de encenação Hélène Bensoussan, Caspar Langhoff
21h30 Seg 13 21h30 Ter 14
Língua Francês Legendado em português Duração 1h45 Classificação M12
Teatro Municipal de Almada Sala Principal
Co-produção: Théâtre de la Ville, MC2: Grenoble, Comédie de Caen – de Normandie Apoio: CulturesFrance