20 Anos
A edição de 2004 do Festival de Almada, comemorativa do 20º
aniversário deste grande encontro anual de teatro, ocorre num
contexto difícil. A crise que afecta o País teve, este ano, reflexos
graves no orçamento do Festival e só o grande esforço despendido e a
imaginação aplicada na procura de novas soluções tornaram possível
que a imagem deste acontecimento central do teatro português não
sofresse prejuízos irreparáveis.
Com um orçamento que ronda os 95.000 contos (menos 13.000 que em
2001), só o estabelecimento de novas parcerias e a colaboração
compreensiva de muitas entidades e participantes permitiram a
manutenção do nível de qualidade artística e a diversidade estética
que são características deste Festival. Mas há uma reflexão que se
impõe e que não evito: o Festival não pode continuar a crescer,
como, decerto, se deseja, dadas a sua função e importância, se não
se alterarem os parâmetros de avaliação que determinam o seu
financiamento, fundamentalmente por parte dos poderes públicos.
Com frequência, aparecem na Imprensa estrangeira referências ao
Festival de Almada, que o integram no grupo dos grandes Festivais
europeus. Se compararmos o orçamento deste Festival com o de alguns
desses outros (que ultrapassam, em vários casos, o milhão de contos,
e noutros os dois milhões) compreende-se o que significa pôr de pé
todos os anos este evento. Alguns Festivais de teatro na vizinha
Espanha, reconhecidamente mais modestos que o de Almada, têm
orçamentos que são o dobro e o triplo do nosso.
Compreendem-se as dificuldades do País e compreende-se o País. Mas
constitui um sinal de uma política cultural inteligente (e sobretudo
quando os meios não abundam) a aposta naquelas estruturas e
iniciativas que revelam potencialidades invulgares e que podem (como
é o caso) contribuir para o prestígio do País no Estrangeiro e para
o desenvolvimento do nosso próprio teatro.
O Festival de Almada atingiu, 20 anos depois da sua fundação, de
forma prudente, modesta, mas plena de confiança nas suas
possibilidades, um lugar limite, a partir do qual enfrenta um
perigoso dilema: ou continua a crescer e a afirmar-se graças a uma
evolução orçamental adequada às novas exigências, ou não poderá
fugir ao destino de tantas outras iniciativas que, por falta de
visão, entram em declínio e, por fim, desaparecem.
Quisemos que os 20 anos do Festival fossem marcados por
acontecimentos especiais: a presença de Roger Planchon, encenador,
dramaturgo, actor, ensaísta, pela primeira vez em Portugal, é um
momento alto da programação. Planchon, fundador e director durante
décadas do Théâtre National de Villeurbanne, influenciou
decisivamente gerações sucessivas de homens de teatro em Portugal.
Os seus espectáculos e os seus textos constituíram marcos da nossa
modernidade. A sua presença entre nós é, por si só, um grande
acontecimento cultural.
A Exposição colectiva, organizada com a colaboração da Casa da Cerca
– Centro de Arte Contemporânea, dos artistas plásticos que durante
10 anos conceberam, a convite, os cartazes do Festival (e a quem
agradecemos a disponibilidade manifestada) é outra forma original e
riquíssima de assinalar estes 20 anos, assim como a exposição dos
trabalhos de um dos maiores cenógrafos de sempre do teatro mundial,
o checo Joseph Svoboda.
Integram-se também nestas comemorações os ciclos sobre o novo teatro
italiano e sobre as teatralidades do Mediterrâneo, organizadas em
colaboração com os Artistas Unidos e o IITM, com a presença de
ilustres participantes.
Quanto ao mais, oferecemo-vos uma programação rica de
acontecimentos, abarcando o teatro, a música, a dança e a ópera, com
a presença de grandes figuras do teatro e, como sempre, com a
preocupação de cruzar estéticas e experiências, de modo a reflectir
a prática multímoda do teatro da nossa época.
Joaquim Benite