ARTUR RAMOS
Artur Ramos, o homenageado deste ano do Festival de Almada, é uma
personalidade artística que marcou profundamente a vida cultural
portuguesa do século XX. Encenador, cineasta, realizador de
televisão, ensaísta, tradutor, Artur Ramos, nos seus vários papéis,
foi sempre um intelectual, um artista que procurou fazer avançar as
coisas, que estudava e se informava, nas difíceis condições da época
que lhe coube viver, e encontrou, ainda, tempo para uma actividade
de divulgação que, até hoje, nunca abandonou.
Foi, entre nós, um pioneiro da televisão, o primeiro rea¬lizador
efectivo da RTP, depois de se ter incumbido das emissões
experimentais na Feira de Palhavã. Em toda a sua carreira esteve
sempre presente o interesse pela literatura portuguesa
con¬temporânea, como se vê, por exemplo, nos seus filmes Pássaros de
Asas Cortadas, de Luís Francisco Rebello, ou A Noite e a Madrugada,
de Fernando Namora, de quem adaptou também Retalhos da Vida de um
Médico, numa famosa série que dirigiu para a RTP, ou na divulgação,
que empreendeu com entusiasmo, das obras de Jaime Salazar Sampaio,
Teresa Rita Lopes, Augusto Sobral, Luís Francisco Rebello, Romeu
Correia, Manuel da Fonseca ou Bernardo Santareno.
Foi, também, um divulgador da dramaturgia moderna, tendo dirigido
textos de Beckett (estreia em por¬tuguês de Os Dias Felizes, com
Glicínia Quartin), Peter Shaffer, Michael Franders, Alec Coppel,
Harold Pinter, John Osborne, Frederic Knott, Kafka, Arthur Miller,
Mitkiewicz, Tancred Dorst, Peter Weiss, Rolf Hochhuth, Heiner
Kippartt, Jordi Texidor, Brecht, Egon Wolf, etc. Na Companhia de
Teatro de Almada dirigiu duas obras: Os Retratos, de Julio Mauricio,
e O Fim da Enfermeira João, de Franck Markus.
Na sua actividade de realizador de teleteatro, na RTP, dirigiu
numerosas peças de autores como Tchecov, Carlos Selvagem, John
Milligton Synge, João Pedro de Andrade, Marivaux, Molière, Gervásio
Lobato, Gozzi, Garrett, Gil Vicente, Calderón, Thorton Wilder, Oscar
Wilde, Lope de Vega, Eugene O’Neill, Cervantes, Bernard Shaw,
Mrozeck, Ribeiro Chiado, D. Francisco Manuel de Melo, Eça de
Queiroz, Luís de Sttau Monteiro, Alfredo Cortez, Marcel Pagnol,
Miguel Rovisco, António Ferreira, entre muitos outros.
Esta lista de autores dá uma ideia da intensa actividade de Artur
Ramos no plano da divulgação cultural. Muitos dos que hoje o admiram
e estimam retiraram deste intenso labor uma parte considerável da
sua for¬mação.
A um tempo artista criador e homem de Cultura, Artur Ramos é alguém
que sempre quis inscrever-se e envolver-se na sua época e na
modernidade. E que soube, com exemplar coerência e convicção,
assumir sempre uma atitude cívica que é o reflexo do seu interesse
pelos outros e da sua imensa e discretíssima generosidade.
Em Artur Ramos o Festival de Almada 2005 homenageia um criador, um
homem de Cultura, e uma per¬sonalidade humanista e tolerante, a quem
devemos, todos os que trabalhamos no teatro, um exemplo de qualidade
artística, de escrupulosa seriedade e de permanente energia.
Esta homenagem é uma forma modesta de lhe agradecer o que fez e o
que, certamente, continuará a fazer pelo teatro.
Joaquim Benite