
Filho de dois professores primários (que talvez lhe tenham
incutido o gosto pela escrita e pelas letras), João Vieira, a
personalidade homenagiada este ano pelo Festival de Almada, nasce em
Vidago, Trás-os-Montes, em 1934. Vem depois para Lisboa, onde
ingressa em 1951 no curso de pintura da Escola Superior de
Belas-Artes. Desiludido com o ensino aí praticado, abandona os
estudos dois anos depois, chegando mesmo a deixar de pintar em 1954,
ano em que se retira em Trás-os-Montes.
De novo em Lisboa, reinicia a sua actividade artística no
estúdio por cima do Café Gelo, que partilhava com René Bertholo,
Gonçalo Duarte e José Escada. Será também neste espaço,
tradicionalmente ligado a tertúlias surrealistas, que João Vieira se
ligará a um grupo de escritores, poetas e artistas (como Manuel de
Castro, Herberto Helder, Helder Macedo e João Rodrigues), que tinham
em comum a mesma vontade de distanciação das correntes artísticas
defendidas pelos demais grupos, tanto como dos ideais da ditadura.
Este contacto juvenil ecoa ainda no marcado experimentalismo que
caracteriza toda a sua produção.
A sua primeira exposição realiza-se em 1956, no I Salão dos
Artistas de Hoje (SNBA, Lisboa) e, no mesmo ano, participa numa
mostra colectiva de sete jovens artistas portugueses (7 Junge
Portugiesische Künstler) no Kunstverein de Hannover.
Um ano depois parte para Paris, onde é aluno de Henri Goetz
na Academie de la Grande Chaumière. Funda, juntamente com René
Bertholo, Lourdes Castro, Gonçalo Duarte, José Escada, Christo e Jan
Voss, o grupo KWY.
Em Janeiro de 1959, a Galeria Diário de Notícias, em Lisboa,
recebe a sua primeira exposição individual e, nesse mesmo ano,
torna-se bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, o que assegura o
seu retorno a Paris, para trabalhar com o pintor Arpad Szenes.
Mantém a colaboração com o KWY, com quem trabalha na realização das
revistas e com quem participa nas exposições em Saarbrüken (1960),
Lisboa (1960), Paris (1961) e Bolonha (1962). Relaciona-se
igualmente com António Saura, pintor gestualista do grupo El Paso, a
quem dedica a pintura António (1963).
O interesse pelos signos do alfabeto, tomados como
elementos-base da sua criação, revela algumas influências, que
passam da poesia experimental ao graffiti, ao cartazismo pop e às
actividades dos letristas franceses dos anos 50. Contudo, há uma
vontade de liberdade, seja ela interpretativa ou corporal, que
ultrapassa todas estas influências e gera um percurso muito próprio,
que vai além da pintura, expandindo-se pelos campos da escultura, do
teatro, da performance, e da cenografia.
Ana Filipa Ramos
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O HOMEM DE TEATRO
No princípio da década de 70, quando, por um deste impulsos
que descobrimos, afinal, serem o resultado de indetectadas
meditações (e não são, portanto, impulsos) me veio a ideia de trocar
a actividade de crítico teatral pela prática do teatro, defrontei-me
com a necessidade, inerente aos projectos que implicam um trabalho
colectivo, de angariar apoios e eleger cumplicidades.
No meio artístico, claro, já que de teatro se tratava. Mas
que meio? Mas que artístico? Lisboa fervilhava, nessa época, com
grupos, tertúlias, escolas e capelas. As polémicas, as divisões, as
discussões sobre o lugar da estética ou sobre a responsabilidade
social da arte, alimentavam, ou justificavam, os movimentos de cada
um. Brecht, Grotowsky, Artaud - e os inimigos comuns, o naturalismo,
o academismo, a ditadura - serviam de referentes nos combates
excessivos que, de algum modo, anunciavam as transformações que em
poucos anos haveriam de alterar o panorama do teatro português.
Foi nessa agitada movimentação que (me) surgiram aqueles que,
com o seu trabalho e o seu convívio, me ajudaram a crescer num
território em que me aventurava sem uma consciência nítida dos
riscos que corria. Eram pessoas do meio artístico, mas de um meio
artístico particular, que começava a superar as velhas contradições
teóricas e que procurava, com entusiasmo, ardor e alegria, operar
sínteses e, no coração dos mais aparentemente irresolúveis
conflitos, descobrir saídas e encontrar novos caminhos. Gente livre.
Para quem a busca de linguagens novas e o desejo radical de
modernidade não eram incompatíveis com a responsabilidade política e
a intervenção social.
Ter-se-á percebido que desde a primeira linha penso em João
Vieira. No criador plástico, certo, que trouxe ao Grupo de Campolide
a qualidade conceptual da sua cenografia e dos seus figurinos, a
minúcia e o rigor de um trabalho que não dispensava a participação
artesanal e a mestria ímpar do colorista. Mas também na pessoa
humana. No companheiro que, desfrutando já nessa altura de um
prestígio artístico individual que o resto da equipa não possuía, se
comportava como se todos estivessem ao seu nível, com uma paciência
infinita para ensinar toda a gente a participar na construção dos
cenários, na fabricação dos adereços, e com uma genuína alegria
perante o êxito colectivo. Era um tempo em que não havia dinheiro -
quer dizer, não havia dinheiro nenhum. Ninguém ganhava nada. As
soluções cénicas de João Vieira, sempre inventivas (os plásticos da
primeira versão de Que farei com este livro?, a cortina de 1383, o
fantástico monstro engolidor de criaturas humanas de Fulgor e morte
de Joaquin
Murieta, os figurinos magistrais de todas estas produções), eram o
resultado de um empenho tenaz e generoso, sem o qual de nada
serviria o esforço imaginativo.
Da obra de João Vieira como artista plástico muitos já
falaram e continuarão a falar, com a competência que a mim
naturalmente falta. Todos reconhecem que é um dos nomes cimeiros das
artes plásticas. Mas é, também, um dos grandes nomes do teatro
português, em que interveio como cenógrafo, como figurinista e como
encenador. Se me permitem o atrevimento gostaria de dizer que, para
mim, a personalidade de João Vieira como homem de teatro é visível,
de resto, em toda a sua actividade criativa: um longo discurso sobre
o corpo e o espaço - referentes insubstituíveis da prática teatral.
Joaquim Benite
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