___________________________________________ Os grandes actores
Teatro Moderno de Lisboa, Render dos
heróis, Cardoso Pires – estes três nomes surgem-me sempre associados
quando penso em Ruy de Carvalho. A personagem do falso cego que
«fazia» nesses tempos heróicos do então cinema Império (na peça de
Cardoso Pires que Fernando Gusmão encenou), e, depois, um mordomo
que o vi representar, com Laura Alves, no desaparecido teatro
Monumental, são ainda hoje pontos cintilantes no céu da minha
memória teatral da juventude.
Ruy foi, na segunda metade do século XX, um dos maiores actores
portugueses. Acompanhei, claro, toda a sua carreira e tive o prazer
de conviver com ele, num grupo de que também faziam parte, entre
outros, o referido Fernando Gusmão (que foi meu mestre, essa figura
carismática e inesquecível que foi Paulo Renato, ou aquela grande
actriz de que todos nos orgulhamos que é Eunice Muñoz.
O génio artístico de Ruy de Carvalho manifesta-se no palco.
Nele, voz e corpo constituem uma identidade, um todo indistinguível.
A modernidade de Ruy de Carvalho (nesses tempos em que a minha
avidez de ver não dispensava o desenvolvimento do sentido crítico,
que é o caldo da aprendizagem) consistia, para mim, numa inabitual
sugestão de facilidade, uma serena gestão do tempo, uma elegância de
elocução e movimento que o faziam sobressair dos conjuntos.
Há actores que só conhecemos no palco, que aí ganham a
«verdadeira» personalidade, e por isso nos transmitem uma impressão
de verosimilhança das falsas personagens que encarnam. Este é o caso
de Ruy de Carvalho.
Conheço-o, mas não o conheço. Quando o vejo, vejo o cego, vejo o
mordomo, vejo o rei louco. Vejo as personagens que, por alguns
momentos, existiram graças a ele. E que nos fizeram viver a nós
também, espectadores, nesse espaço breve que só existe quando os
supremos arquitectos que são os actores o concebem e tornam
realidade. Raramente entramos nesse espaço. Só quando os actores o
permitem. Os grandes actores.
Joaquim Benite
Ruy de Carvalho nasceu em Lisboa, em
1927. Concluído o Curso de Teatro, no Conservatório Nacional,
estreia-se no Teatro Nacional D. Maria II, em 1947, na peça Rapazes
de hoje, de Roger Ferdinand. Esta passagem pela Companhia Rey
Colaço/Robles Monteiro seria o início de uma carreira de sucessos
consolidados, que passaria, ainda, pelo Teatro do Povo – onde seria
dirigido por Ribeirinho –, pela co-fundação do Teatro Moderno de
Lisboa, e pelo Teatro Experimental do Porto, onde assina a sua
primeira e única encenação (Terra firme, de Miguel Torga).
De regresso ao Teatro Nacional, de Lisboa, em 1977, Ruy de
Carvalho dará um renovado fôlego à sua carreira, assegurando com
singular brilhantismo – em Lisboa e no Porto, no Teatro Nacional São
João – protagonistas do mais importante reportório teatral (como em
Minetti, de Thomas Bernhard, ou A tempestade e Rei Lear, de W.
Shakespeare). Também no cinema, onde trabalhou, entre outros
realizadores, com Manoel de Oliveira, Ruy de Carvalho deixou uma
relevante marca interpretativa