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 HOMENAGEM 2009: RUY DE CARVALHO  

 

 


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Os grandes actores

Teatro Moderno de Lisboa, Render dos heróis, Cardoso Pires – estes três nomes surgem-me sempre associados quando penso em Ruy de Carvalho. A personagem do falso cego que «fazia» nesses tempos heróicos do então cinema Império (na peça de Cardoso Pires que Fernando Gusmão encenou), e, depois, um mordomo que o vi representar, com Laura Alves, no desaparecido teatro Monumental, são ainda hoje pontos cintilantes no céu da minha memória teatral da juventude.

Ruy foi
, na segunda metade do século XX, um dos maiores actores portugueses. Acompanhei, claro, toda a sua carreira e tive o prazer de conviver com ele, num grupo de que também faziam parte, entre outros, o referido Fernando Gusmão (que foi meu mestre, essa figura carismática e inesquecível que foi Paulo Renato, ou aquela grande actriz de que todos nos orgulhamos que é Eunice Muñoz.

O génio artístico de Ruy de Carvalho manifesta-se no palco. Nele, voz e corpo constituem uma identidade, um todo indistinguível. A modernidade de Ruy de Carvalho (nesses tempos em que a minha avidez de ver não dispensava o desenvolvimento do sentido crítico, que é o caldo da aprendizagem) consistia, para mim, numa inabitual sugestão de facilidade, uma serena gestão do tempo, uma elegância de elocução e movimento que o faziam sobressair dos conjuntos.

Há actores que só conhecemos no palco, que aí ganham a «verdadeira» personalidade, e por isso nos transmitem uma impressão de verosimilhança das falsas personagens que encarnam. Este é o caso de Ruy de Carvalho.
Conheço-o, mas não o conheço. Quando o vejo, vejo o cego, vejo o mordomo, vejo o rei louco. Vejo as personagens que, por alguns momentos, existiram graças a ele. E que nos fizeram viver a nós também, espectadores, nesse espaço breve que só existe quando os supremos arquitectos que são os actores o concebem e tornam realidade. Raramente entramos nesse espaço. Só quando os actores o permitem. Os grandes actores.

Joaquim Benite

Ruy de Carvalho nasceu em Lisboa, em 1927. Concluído o Curso de Teatro, no Conservatório Nacional, estreia-se no Teatro Nacional D. Maria II, em 1947, na peça Rapazes de hoje, de Roger Ferdinand. Esta passagem pela Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro seria o início de uma carreira de sucessos consolidados, que passaria, ainda, pelo Teatro do Povo – onde seria dirigido por Ribeirinho –, pela co-fundação do Teatro Moderno de Lisboa, e pelo Teatro Experimental do Porto, onde assina a sua primeira e única encenação (Terra firme, de Miguel Torga).

De regresso ao Teatro Nacional, de Lisboa, em 1977, Ruy de Carvalho dará um renovado fôlego à sua carreira, assegurando com singular brilhantismo – em Lisboa e no Porto, no Teatro Nacional São João – protagonistas do mais importante reportório teatral (como em Minetti, de Thomas Bernhard, ou A tempestade e Rei Lear, de W. Shakespeare). Também no cinema, onde trabalhou, entre outros realizadores, com Manoel de Oliveira, Ruy de Carvalho deixou uma relevante marca interpretativa

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