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 HOMENAGEM 2010: MARIA BARROSO

 

 

Num fim de tarde de Primavera de 1966 um jovem jornalista de 22 anos desceu, a pé, a Rua da Misericórdia, com a vista do Tejo ao fundo, a luz do pôr-do-sol e o cheiro a maresia que se combinam nesta artéria de uma forma tão dolente, lisboeta. Atravessou o Chiado e entrou na Rua António Maria Cardoso, que percorreu até ao então cine-teatro São Luiz. Ao lado desta velha sala de espectáculos (que havia sido antes o Theatro D. Amélia e ganhara o seu novo nome em homenagem ao banqueiro torna-viagem Visconde de S. Luiz, o mais famoso dos seus antigos empresários) situava-se a sede da PIDE, a polícia política de Salazar.

O jovem jornalista apresentou na bilheteira as suas credenciais, recebeu um bilhete, entrou no átrio da grande sala, onde uma considerável parte do público já estava sentada, reconheceu, nos que ainda permaneciam, conversando com agitação, cá fora, escritores, artistas, intelectuais, políticos da oposição.

O espectáculo começou. Uma frágil mulher ao telefone tentava, com amargura e impaciência, religar os fios partidos de uma vida. A sua voz era a voz da perplexidade e da angústia da perda, a voz humana.

O jovem jornalista ficou fascinado por essa voz que penetrava a consciência, plena de verdade, matizada de cambiantes de cor, veemente e contida, doce e amarga, alegre e triste. O teatro, como então o imaginava, como um acto real de transmissão que proporcionava uma realidade superior, onde as contradições se anulavam, impusera-se nos que presenciavam o ritual e criara essa atmosfera de suspensão do tempo que só os grandes actores tornam possível. De súbito, subitamente de súbito, o sórdido ataque explodiu. Os polícias, vindos da casa do lado, tinham espalhado pela sala frascos de um cheiro de vómitos que anunciava a presença da peçonha que representavam. O público teve de abandonar a sala. Tumulto. Gritos de protestos. Impropérios. Frases indignadas.

O espectáculo deu lugar à manifestação. A realidade real assassinava a poesia que uma frágil figura de mulher (mas grande figura de actriz) soubera invocar e fazer surgir.

Tenho a memória dessa tarde longínqua dentro de mim, nítida, minuciosa. A actriz era Maria Barroso. O texto era A voz humana, de Jean Cocteau. Os provocadores eram os agentes da PIDE, a quem, em última análise, cabia manter as condições de repressão para a hipocritamente chamada “política do espírito” do Estado Novo.

A notícia do espectáculo, que escrevi para o meu jornal de então, o República, foi, obviamente, cortada pela Censura.

Não sabia, na altura, não podia adivinhar, que estava a assistir à última criação teatral de Maria Barroso e não imaginava que quase meio século depois estaria aqui a evocar essa tarde, num País diferente — um País democrático que não é aquele com que sonhei, é certo, mas onde o fascismo foi derrotado.

Homenageamos Maria Barroso — que terminou o Curso do Conservatório (com 18 valores) em 1943, o ano em que nasci — não só porque é uma grande actriz (e se não voltou a fazer teatro, fez, felizmente, filmes que permitem às novas gerações conhecê-la), mas também porque a sua acção de combate corajoso contra a Ditadura constitui um exemplo para os jovens de hoje.

Como divulgadora da poesia, Maria Barroso deu voz aos poetas da Resistência, a uma geração de grandes criadores que pensava que a Arte não podia abstrair-se das causas sociais. O Festival de Almada sente-se orgulhoso de contribuir para saldar, através desta homenagem, uma parte da dívida que todos temos para com as generosas mulheres e os generosos homens que nos mostraram os caminhos da liberdade.

Joaquim Benite

 

Maria de Jesus Barroso Soares (Fuzeta, 2-5-1925) estreou-se no teatro em 1944 e foi, até à década de 60, apesar da sua juventude, uma das actrizes prestigiadas do teatro português. Diplomada pelo Conservatório Nacional (1943), licenciou-se depois em Ciências Histórico Filosóficas, na Faculdade de Letras de Lisboa (1951), onde conheceu Mário Soares, com quem viria a casar. Maria Barroso terminou o curso do Conservatório num exame público no Teatro da Trindade, cujo júri, presidido pelo grande actor Alves da Cunha, a classificou com 18 valores.

Em 1944, aparece no Teatro do Ginásio em Sua Excelência o ladrão, ao lado de Brunilde Júdice e Alves da Costa, e, no mesmo ano, no Teatro Nacional em Aparências, de Jacinto Benavente, dirigida por Palmira Bastos. Aqui interpreta, nos anos seguintes, A pastora perdida, de Santiago Prezado, Filodemo, de Camões, Os maridos peraltas e as mulheres sagazes, de Nicolau Luís, Vidas sem rumo, de Olga Alves Guerra, Zilda, de Alfredo Cortês, Tovarich, de Jacques Duval, Raça, de Rui Correia Leite, Férias, de Maria Luz Regas e Juan Alvellos, A lareira do pecado, de Pedro Alvellos, Frei Luís de Sousa, de Garrett, Antígona, de Júlio Dantas, Auto da barca do Inferno e Auto da Cananeia, de Gil Vicente, Maria Rita, de Teresa Canto, Alcipe, de Teresa Leitão de Barros, Frei António das Chagas, de Júlio Dantas, Os velhos, de D. João da Câmara, Lisboa, de Jorge Ferreira de Vasconcelos, Benilde ou a Virgem Mãe, de Régio, O retábulo das maravilhas, de Cervantes, A casa de Bernarda Alba, de Lorca, Paulina vestida de azul, de Joaquim Paço d’Arcos.

Por razões políticas a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro cancela o contrato com Maria Barroso no fim dos anos 40. A actriz só voltaria ao teatro em 1965 (O segredo de Michael Redgrave e Antígona de Jean Anouilh, no Teatro Villaret; e em 1966 A voz humana, de Jean Cocteau, no Teatro São Luiz).

Depois da Revolução de 74, Maria Barroso, que já interpretara filmes, entre os quais Mudar de vida de Paulo Rocha (1966), trabalhará com Manoel de Oliveira: Benilde ou a Virgem Mãe (1974), Amor de perdição (1978), Lisboa cultural (1983), Le soulier de satin (1985). Distinguiu-se também como declamadora de poesia, tendo participado em muitos recitais durante a resistência à ditadura do Estado Novo.

Maria Barroso foi deputada à Assembleia da República pelos círculos de Santarém, Porto e Faro, e Primeira Dama de Portugal entre 1986 e 1996. Em 1990 criou o movimento Emergência Moçambique, outorgando, no ano seguinte, a escritura da Associação para o Estudo e Prevenção da Violência. Em 1995 presidiu à abertura do ciclo de realizações do Ano Internacional de Luta contra o Racismo e em 1997 presidiu à Cruz Vermelha Portuguesa, funções que cessou em 2003. Foi distinguida com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.

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