Num
fim de tarde de Primavera de 1966 um jovem jornalista de 22 anos
desceu, a pé, a Rua da Misericórdia, com a vista do Tejo ao
fundo, a luz do pôr-do-sol e o cheiro a maresia que se combinam
nesta artéria de uma forma tão dolente, lisboeta. Atravessou o
Chiado e entrou na Rua António Maria Cardoso, que percorreu até
ao então cine-teatro São Luiz. Ao lado desta velha sala de
espectáculos (que havia sido antes o Theatro D. Amélia e ganhara
o seu novo nome em homenagem ao banqueiro torna-viagem Visconde
de S. Luiz, o mais famoso dos seus antigos empresários)
situava-se a sede da PIDE, a polícia política de Salazar.
O jovem jornalista apresentou na
bilheteira as suas credenciais, recebeu um bilhete, entrou no átrio
da grande sala, onde uma considerável parte do público já estava
sentada, reconheceu, nos que ainda permaneciam, conversando com
agitação, cá fora, escritores, artistas, intelectuais, políticos da
oposição.
O espectáculo começou. Uma frágil mulher ao telefone tentava,
com amargura e impaciência, religar os fios partidos de uma vida. A
sua voz era a voz da perplexidade e da angústia da perda, a voz
humana.
O jovem jornalista ficou fascinado por essa voz que penetrava
a consciência, plena de verdade, matizada de cambiantes de cor,
veemente e contida, doce e amarga, alegre e triste. O teatro, como
então o imaginava, como um acto real de transmissão que
proporcionava uma realidade superior, onde as contradições se
anulavam, impusera-se nos que presenciavam o ritual e criara essa
atmosfera de suspensão do tempo que só os grandes actores tornam
possível. De súbito, subitamente de súbito, o sórdido ataque
explodiu. Os polícias, vindos da casa do lado, tinham espalhado pela
sala frascos de um cheiro de vómitos que anunciava a presença da
peçonha que representavam. O público teve de abandonar a sala.
Tumulto. Gritos de protestos. Impropérios. Frases indignadas.
O espectáculo deu lugar à manifestação. A realidade real
assassinava a poesia que uma frágil figura de mulher (mas grande
figura de actriz) soubera invocar e fazer surgir.
Tenho a memória dessa tarde longínqua dentro de mim, nítida,
minuciosa. A actriz era Maria Barroso. O texto era A voz humana, de
Jean Cocteau. Os provocadores eram os agentes da PIDE, a quem, em
última análise, cabia manter as condições de repressão para a
hipocritamente chamada “política do espírito” do Estado Novo.
A notícia do espectáculo, que escrevi para o meu jornal de
então, o República, foi, obviamente, cortada pela Censura.
Não sabia, na altura, não podia adivinhar, que estava a
assistir à última criação teatral de Maria Barroso e não imaginava
que quase meio século depois estaria aqui a evocar essa tarde, num
País diferente — um País democrático que não é aquele com que
sonhei, é certo, mas onde o fascismo foi derrotado.
Homenageamos Maria Barroso — que terminou o Curso do
Conservatório (com 18 valores) em 1943, o ano em que nasci — não só
porque é uma grande actriz (e se não voltou a fazer teatro, fez,
felizmente, filmes que permitem às novas gerações conhecê-la), mas
também porque a sua acção de combate corajoso contra a Ditadura
constitui um exemplo para os jovens de hoje.
Como divulgadora da poesia, Maria Barroso deu voz aos poetas
da Resistência, a uma geração de grandes criadores que pensava que a
Arte não podia abstrair-se das causas sociais. O Festival de Almada
sente-se orgulhoso de contribuir para saldar, através desta
homenagem, uma parte da dívida que todos temos para com as generosas
mulheres e os generosos homens que nos mostraram os caminhos da
liberdade.
Joaquim Benite
Maria de Jesus Barroso Soares (Fuzeta,
2-5-1925) estreou-se no teatro em 1944 e foi, até à década de
60, apesar da sua juventude, uma das actrizes prestigiadas do
teatro português. Diplomada pelo Conservatório Nacional (1943),
licenciou-se depois em Ciências Histórico Filosóficas, na
Faculdade de Letras de Lisboa (1951), onde conheceu Mário
Soares, com quem viria a casar. Maria Barroso terminou o curso
do Conservatório num exame público no Teatro da Trindade, cujo
júri, presidido pelo grande actor Alves da Cunha, a classificou
com 18 valores.
Em 1944, aparece no Teatro do Ginásio em Sua Excelência o
ladrão, ao lado de Brunilde Júdice e Alves da Costa, e, no mesmo
ano, no Teatro Nacional em Aparências, de Jacinto Benavente,
dirigida por Palmira Bastos. Aqui interpreta, nos anos
seguintes, A pastora perdida, de Santiago Prezado, Filodemo, de
Camões, Os maridos peraltas e as mulheres sagazes, de Nicolau
Luís, Vidas sem rumo, de Olga Alves Guerra, Zilda, de Alfredo
Cortês, Tovarich, de Jacques Duval, Raça, de Rui Correia Leite,
Férias, de Maria Luz Regas e Juan Alvellos, A lareira do pecado,
de Pedro Alvellos, Frei Luís de Sousa, de Garrett, Antígona, de
Júlio Dantas, Auto da barca do Inferno e Auto da Cananeia, de
Gil Vicente, Maria Rita, de Teresa Canto, Alcipe, de Teresa
Leitão de Barros, Frei António das Chagas, de Júlio Dantas, Os
velhos, de D. João da Câmara, Lisboa, de Jorge Ferreira de
Vasconcelos, Benilde ou a Virgem Mãe, de Régio, O retábulo das
maravilhas, de Cervantes, A casa de Bernarda Alba, de Lorca,
Paulina vestida de azul, de Joaquim Paço d’Arcos.
Por razões políticas a Companhia Rey Colaço-Robles
Monteiro cancela o contrato com Maria Barroso no fim dos anos
40. A actriz só voltaria ao teatro em 1965 (O segredo de Michael
Redgrave e Antígona de Jean Anouilh, no Teatro Villaret; e em
1966 A voz humana, de Jean Cocteau, no Teatro São Luiz).
Depois da Revolução de 74, Maria Barroso, que já interpretara
filmes, entre os quais Mudar de vida de Paulo Rocha (1966),
trabalhará com Manoel de Oliveira: Benilde ou a Virgem Mãe
(1974), Amor de perdição (1978), Lisboa cultural (1983), Le
soulier de satin (1985). Distinguiu-se também como declamadora
de poesia, tendo participado em muitos recitais durante a
resistência à ditadura do Estado Novo.
Maria Barroso foi deputada à Assembleia da República
pelos círculos de Santarém, Porto e Faro, e Primeira Dama de
Portugal entre 1986 e 1996. Em 1990 criou o movimento Emergência
Moçambique, outorgando, no ano seguinte, a escritura da
Associação para o Estudo e Prevenção da Violência. Em 1995
presidiu à abertura do ciclo de realizações do Ano Internacional
de Luta contra o Racismo e em 1997 presidiu à Cruz Vermelha
Portuguesa, funções que cessou em 2003. Foi distinguida com o
título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro.