actos complementares

O SENTIDO DOS MESTRES


Em colaboração com a Share Foundation, o Festival de Almada inicia um ciclo de cursos, a realizar nos próximos quatro anos, sobre várias disciplinas relacionadas com o teatro, intitulado O sentido dos Mestres. Em 2014 o formador será o actor e encenador Luis Miguel Cintra, a quem serão ainda dedicados uma exposição biográfica e um ciclo de cinema. Os cursos decorrerão na Casa da Cerca, em Almada.

RESPOSTA A UMA HOMENAGEM:
PARTILHAR CONTAS À VIDA


Apesar de tudo já houve um tempo que vivi em que a face da Arte Portuguesa não era um Cacilheiro reciclado a boiar nas águas de Veneza.

Garanto aos mais novos que foi só um exemplo, mas que aconteceu: foi, depois de alguns dias infernais de trabalho pesado nos Cantieri Navali, um espectáculo, em português, A Missão, de Heiner Müller que se apresentou uma noite na Biennale, na presença do autor Heiner Müller que nos viu e me beijou à russa com uma frase que nunca esquecerei: “só os católicos entendem os comunistas”. E um debate público onde só falou depois de lhe pagarem e de nos ter dito: “não dêem importância aos italianos: só pensam na moda”. Viveu o fim da época que largámos para entrarmos neste novo tempo de tirania do mercado como a necessidade de fazer um rasgão nos céus de papel da memória revolucionária. Trabalhar para o Caos. Mas era italiano o Director da secção Teatro que nos convidava, foi o mais importante e inteligente (!) crítico de teatro do meu tempo: Franco Quadri. O primeiro a me chamar Mestre e a me incluir na École des Maîtres. Já morreu e Heiner Müller também.

Quando pensei que tudo isto já era passado, no sítio onde os Cacilheiros ainda atravessam o Tejo para transportar gente que ganha mal e trabalha muito, numa cidade de antigos e novos militantes, Almada, há ainda um Festival de Teatro que cria cumplicidades e me quer fazer uma homenagem, ou seja, quer voltar a chamar-me Mestre. Agradeço, mas lembrando o trabalhador incansável que foi Joaquim Benite, só sei responder ao seu sucessor à frente do Festival com mais trabalho: um balanço do que fiz e de como fiz e com quem fiz.

Proponho-me deitar contas à vida (ao trabalho teatral) partilhando esse balanço com velhos camaradas e novas pessoas que andaram e andam no mesmo baloiço. Um desafio a alguns colegas de várias idades para um debate sem pressas na Casa da Cerca:  façamos o ponto da situação e um confronto de obje-ctivos, e, ao longo da semana, 5 conversas (um curso?) para acompanhar uma exposição biográfica que tentarei que seja didáctica e que explique a um grupo mais pequeno de pessoas que só se aprendem os 7 ofícios de que o teatro é feito, fazendo e trabalhando, mas que isso exige gostar de não parar de renascer e ter mais foles que os 7 que o gato tem. Leva-nos coiro e cabelo, e lembrando Galy Gay, dá-nos mais calo do que aquele que ganha quem se julga um elefante.

Luis Miguel Cintra

OS INTERESSADOS EM PARTICIPAR NO CURSO DEVERÃO ENVIAR O CURRICULUM VITAE E UMA CARTA DE MOTIVAÇÃO PARA geral@ctalmada.pt . A INSCRIÇÃO TEM UM VALOR DESDE 60€ (30€ SE OS PARTICIPANTES FOREM ASSINANTES DO FESTIVAL DE ALMADA).

 

UM DIA DE ENCONTRO

Sáb 05 > 10h30 e às 14h30
CASA DA CERCA

Na Casa da Cerca é como se estivéssemos fora do Mundo a olhar para lá. Quase como quando olhamos para as Cidades quando vamos de avião. Tenho boas recordações dos debates a que fui. Gera-se uma calma que acho que vem da distância. Há luz e um rio largo. Às vezes chega ali o ar do mar. Na homenagem que o Festival de Almada me quer fazer e a que tento por todos os meios ao meu alcance retirar o carácter de início de uma reforma que não desejo mas de que, é verdade, chegou o Tempo, pensei em tentar no debate que todos os anos o Festival promove, uma longa e calma conversa entre gente de várias gerações para principal uso, claro está, das gerações mais novas, em que se percebesse o que tem sido o nosso Teatro desde que esta nossa terra em que vivemos tem Democracia, desde há 40 anos, começando pela geração dos que ainda ajudaram a que essa Democracia acontecesse, os de mais de 60, os que com, depois da mudança, foi connosco que começaram a trabalhar e agora já têm talvez 50, e os que nasceram ao som de “O Povo Unido Nunca Mais será Vencido” ou “25 de Abril sempre”, de 40-30 anos, mais os que agora começam. A razão é uma só: o Teatro é como estar vivo, não se faz sozinho, é nele e com ele que tenho usado a minha vida. E quer se queira quer não, é como a Política devia ser, uma arte de estar com os outros. Mas os outros vão sendo sempre outros, sendo o Tempo o que é. Eu sei, mas sejam os mesmos ou sejam diferentes, o público são os outros. E o nosso ofício, como naquela peça que era Teatro Impossível há um século atrás, e há 20 anos deixou de ser, e agora, felizmente, já é aplaudida na TV, o Público, de Garcia Lorca, o nosso ofício é o que antecede e se segue ao diálogo que nem era preciso que um poeta o escrevesse. “Senhor?”“Que foi?”“Está aí o público.”“Que entre!”

Que os que têm cara contem o que quiseram fazer, o que não conseguiram e o que conseguiram, o que ainda queremos que venha a acontecer. Talvez ajude a inventar o que ainda está para vir. Serve, pelo menos, para termos o prazer de nos irmos conhecendo. E eu por mim já mudei o antigo diálogo. Passou a ser: “Estás a ouvir?”“O quê?”“Está lá fora imensa gente.”“Quem?”“O Manel, a Maria, a Carla, a Sofia, o Tiago, o Rui, o …” –“E tu estás aí nas calmas? Vamos mas é começar.”

Luis Miguel Cintra

PARTRTICIPANTES: Ana Zamora (Encenadora. Directora da Nao D’Amores) Bruno Bravo (Encenador. Director dos Primeiros Sintomas) Christine Laurent (Encenadora. Realizadora) João Brites (Encenador. Director de O Bando) João Lourenço (Encenador. Director do Teatro Aberto) João Mota (Encenador. Director do Teatro Nacional D. Maria II) João Pedro Vaz (Encenador. Director das Comédias do Minho) Miguel Seabra (Encenador. Director do Teatro Meridional) Nuno Carinhas (Encenador. Director do Teatro Nacional S. João)

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CONVERSA PARA CINCO DIAS

Cinco tardes de conversa com os meus colaboradores sobre os aspectos que o trabalho teatral envolve.
das 14h00 às 18h00
(todos os dias)
CASA DA CERCA
SEG 07 OS PROBLEMAS DA FORMAÇÃO ARTÍSTICA
TER 08 AS FORMAS E OS MODOS DE PRODUÇÃO E A RELAÇÃO COM O PÚBLICO
QUA 09 REPERTÓRIOS E TEXTOS
QUI 10 A INVENÇÃO DOS ESPAÇOS CÉNICOS
SEX 11 O TRABALHO COM OS ACTORES

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A EXPOSIÇÃO


Luis Miguel Cintra, a personalidade homenageada do Festival deste ano, conta já com mais de uma centena de encenações – quase sempre com cenários de Cristina Reis. Esta exposição na Escola D. António da Costa é um trajecto pela memória desses trabalhos. Trata-se de um registo documental, fotográfico e vídeo, incompleto e fragmentário – mas ainda assim uma parte importante do acervo teatral português.


Lembraram-me que o Festival costuma fazer uma exposição sobre a pessoa a quem presta homenagem. E que queriam também fazer isso comigo. E na minha ânsia de afastar vaidades e querer ir logo direito ao assunto, coisa que tantos dissabores me tem trazido, creio que me saltou boca fora, ou podia ter saltado, e com razão: “Expor o quê? O que fiz como encenador? Já passou. E o que fiz como actor também. Não me importo com isso, até gosto. Que material posso expor?”.

Tinha uma embirração especial por Bob Wilson. Quando vi o primeiro espectáculo de Bob Wilson fiquei boquiaberto. O que me fazia ficar de pé atrás até então era aquele aparato tecnológico que desalmava tão gráficas imagens. Mas para espanto meu não era assim, era teatro mesmo, tão teatro que passava, e nas fotografias e descrições não, e era o mais importante, o que de mais frágil tem: as dissonâncias, as falhas naquele sistema tão aperfeiçoado de criar efeitos visuais. Mas pensando nestas coisas e pensando sobretudo que o que fiz no teatro e que é próprio de um encenador, ou de um actor, como eu os entendo, é viver para os outros e pelos outros, e tive a sorte de trabalhar a vida inteira e quase sempre com uma amiga (a Cristina Reis) que me ajuda a ver muitas belas imagens onde eu tenho tendência para ver primeiro dinâmicas de comportamentos, resolvi que aceitava que se fizesse para que se visse e se tomasse consciência do que tem sido o trabalho dela. E, apesar de tudo, também quanto já trabalhei. Passa já bastante dos 100 espectáculos. No cinema, é outra coisa; férias. Sou um pobre admirador dos belos artistas em quem confiei.

A exposição O sentido dos mestres É portanto uma exposição dos trabalhos da Cristina... e da Cornucópia, quer dizer, de fotografias de cenários povoados. E que fosse, valia a pena. Eu não tenho cuidado nenhum em preservar documentos e até tenho horror a ver as gravações vídeo, que temos feito… Chateia-me, porque o “recuerdo” é sempre melhor. Mas depois comecei a habituar–me à ideia, passando por uma fase em que dizia a mim próprio: e quem é que vai fazer essa exposição. Mas lembrei-me de outra coisa. Não disse já tantas vezes que o que faz a qualidade do actor é a sua capacidade de se expor, é gostar de se mostrar? Donde vem então o medo de fazer uma exposição? Parece que é a primeira vez que te permites entrar no circo? “Menina, não sejas vaidosa… isso é coquetterie”. E concluí: vamos a isso, e quem vai conduzir a exposição sou eu.

Mais uma máscara. Mas sinto-me em casa e entre amigos. Noutro contexto, a um Festival brasileiro que me queria homenagear respondi: “como assim? se os brasileiros não conhecem sequer o que faço? Se nunca apresentei um espectáculo no Brasil?!” E se conhecessem tenho quase a certeza de que não gostavam. Coisas do clima, ou do mercado. A fruta lá é diferente… A língua é portuguesa. Escreve-se da mesma maneira graças a um acordo em que o meu pai trabalhou, porque sabia que é difícil negar a História. Mas os ouvidos não ouvem o mesmo.

E comecei a reparar que grande parte dos que nos vêem agora têm menos de 40. Que memória podem ter do que fizemos? Aliás são esses que começam a convencer-me de que ainda vale a pena fazer mais...

 

Luis Miguel Cintra

 

ALMADA

ESCOLA D. ANTÓNIO DA COSTA
04 a 18 JUL > Das 15h00 às 24h00

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UMA CASA PEQUENINA PARA O CINEMA


Eu queixo-me de que não é do cinema que gosto mais mas fiz muitos filmes e orgulho-me da minha filmografia. Tive a sorte de me cruzar com muita gente boa. Comecei logo com dois realizadores maravilhosos, cada qual a seu modo: o João César Monteiro e o Paulo Rocha. E foram-me fiéis. No fim das suas vidas continuaram a chamar por mim. E como é sabido, fui sempre fiel à profunda amizade e admiração pelo decano dos realizadores portugueses, Manoel de Oliveira, que começou num filme de sete horas, que é a filmagem integral de uma peça de teatro em versos franceses, Le Soulier de Satin de Claudel. E outros filmes de Oliveira são teatro filmado: peças do seu amigo José Régio, o recente Gebo e a Sombra de Raul Brandão, por exemplo. Muitos foram os cruzamentos entre teatro e cinema.

Há também realizadores que filmaram es-pectáculos nossos como quem faz um filme, ou encontraram na Cornucópia assunto e meios humanos para filmar: é o caso da Solveig Nordlund que filmou E não se pode exterminá-lo? e transformou a Música para si num filme diferente do espectáculo e filmou Dalila Rocha em Novas perspectivas; é o caso do José Álvaro de Morais, espectador fidelíssimo da Cornucópia e que nos 25 anos de companhia quis fazer um filme que acabou por não assinar porque não teve condições para o fazer como queria. Há uma realizadora que se tornou encenadora de teatro porque me chamou para um filme em que nos conhecemos, rodado num teatro, o Garcia de Resende de Évora, que voltou a ser de ópera e onde me pôs a dirigir as Bodas, a Christine Laurent, e acabou por fazer o seu último filme (Demain?) com actores portugueses que conheceu connosco. E há o Joaquim Pinto e o Nuno Leonel que vieram filmar o Fim de Citação. E o Ricardo Aibéo, actor tantos anos na casa, que se tornou também realizador e que, quando ensaiámos A Tempestade de Shakespeare, fez um filme a que chamou A Ilha, e que é um retrato da Companhia que reconheço e me toca, e que, a nosso pedido, também filmou um espectáculo para nós muito importante: o Miserere. E uma das nossas actrizes, a Sofia Marques, que recentemente virou documentarista e filmou o trabalho do António Fonseca com Os Lusíadas e filmou a preparação de um espectáculo nosso especial, recente, o Ilusão, com actores não profissionais, e que irá apresentar durante o Festival esse filme, na fase de montagem em que estiver.

O Festival de Almada vai tentar que uma selecção/montagem de excertos de filmes em que participei, e alguns dos filmes mais directamente ligados ao teatro, possa ser vista em dvd numa salinha montada para o efeito durante o tempo de Festival. Eu virei cada dia de certa maneira apresentá-los a quem os quiser ver.



Luis Miguel Cintra

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ESCOLA D. ANTÓNIO DA COSTA

Seg 07 > 19h00 A ilha dos amores (Paulo Rocha,1982, 100 min.)
Ter 08 > 19h00 O bobo (José Á lvaro de Morais,1987, 100 min.)
Qua 9 > 19h00 ‘Mon cas’ (Manoel de Oliveira, 1987, 92 min.)
Qui 10 > 19h00 A morte do príncipe (Maria de Medeiros,1991, 62 min.)
Sex 11 > 19h00 A louca jornada (a partir de uma ideia de José Á lvaro Morais, 2001, 47 min.)
Dom 13 > 16h00 O Novo Testamento de Jesus Cristo segundo João (Joaquim Pinto e Nuno Leonel, 2013, 129 min.)
Seg 14 > 18h00 Fim de citação (Joaquim Pinto e Nuno Leonel, 2013, 90 min.)
Qua 16 > 19h00 ‘Miserere’ (Ricardo Aibéo, 2013, 90 min.)
Qui 17 > 18h00 A ilha (Ricardo Aibéo, 2013, 60 min.)

FÓRUM ROMEU CORREIA

Sex 18 > 19h00 A ilusão [título provisório] (Sofia Marques, 2014, 60 min. aprox.)

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