rogerio de carvalho

As muitas palavras pronunciadas pelo criador ao longo de mais de trinta anos parecem ter desempenhado um papel decisivo – juntamente com a evidência das suas criações cénicas – na construção de uma das imagens públicas mais inequivocamente marcantes da paisagem artística nacional. Mais elogiosos ou mais críticos, os títulos de algumas das suas muitas entrevistas, ao longo destes mais de trinta anos, são assaz reveladores do tipo muito particular de energia repetidamente transmitido pelo entrevistado: “Ricardo Pais: Falar Alto e Ser Ouvido”, “É Preciso Abalar a Paz Podre”, “A Missão de Ricardo”, “Espalha-Brasas”, “Don Ricardo”, “Ricardo Pais: Caminhos de Um Franco-Atirador”, “Ricardo Pais: O Português Intranquilo”. Nos parágrafos introdutórios dessas entrevistas, o criador surge repetidamente apresentado pelos jornalistas com a mais extraordinária diversidade de atributos, com um destaque muito particular para a energia e determinação, reflectidas numa invulgar velocidade discursiva e numa intensidade de raciocínio tão cativante como perturbadora. (…)
Como uma vez sugeriu Eugénia Vasques, (…) “os espectáculos de Ricardo Pais têm esta específica qualidade de virem marcados pelo estigma da diferença”. E talvez que essa diferença, ou antes, as muitas diferenças que caracterizam as suas criações, justifiquem a intensidade e a resistência de muitas reacções, do mesmo modo que também explicam os numerosos entusiasmos que foram gerando, umas vezes, motivados pelos mais profundos fascínios, outras, devido às mais superficiais das razões. (…)
Por muito que um grande número dos seus espectáculos apresentem, nas palavras do próprio criador, “aquele ar irritantemente sistémico ‘à Ricardo Pais’”, tais mecanismos de rigor e de coerência não são mais do que, muitas vezes, estratégias recorrentes para poder instalar uma rara – e, de outro modo, impossível – liberdade criativa, nomeadamente para alcançar os almejados efeitos expressivos através das contribuições de todos os outros cúmplices envolvidos nesses projectos. É, contudo, destas tensões que tem vivido a sua arte, nos mais diversos domínios da experiência cénica, tanto nas estratégias de apropriação dramatúrgica, como no trabalho com os intérpretes ou, ainda, nas relações com o espaço, seja ele visual ou sonoro. Tensões entre uma visão de extrema coerência formal e uma pulsão libertadora, aberta ao imprevisto surrealizante, tensões ainda entre uma invulgar sedução pela matéria verbal e uma não menos intensa paixão pelo poder expressivo da imagem organizada. Mas tensão, acima de tudo, entre um quase compulsivo solipcismo criativo – que, tantas vezes, o levou a manifestar o desejo de não sair da sala de ensaios – e uma desenfreada, embora sempre exigente, vontade de comunicar (…).


Paulo Eduardo de Carvalho
in Ricardo Pais: Actos e Variedades, Porto, Campo das Letras, 2006 (pp. 263-267). Adaptado.